Quem se importa? Quem escuta? Quem lê?

Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Este quarto…


*

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto…
que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.
Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.
A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…

Mario Quintana

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Estudo de nu

Essa linha que nasce nos teus ombros,

Que se prolonga em braço, depois mão,

Esses círculos tangentes, geminados,

Cujo centro em cones se resolve,

Agudamente erguidos para os lábios

Que dos teus se desprenderam, ansiosos.


Essas duas parábolas que te apertam

No quebrar onduloso da cintura,

As calipígias ciclóides sobrepostas

Ao risco das colunas invertidas:

Tépidas coxas de linhas envolventes,

Contornada espiral que não se extingue.


Essa curva quase nada que desenha

No teu ventre um arco repousado,

Esse triangulo de treva cintilante,

Caminho e selo da porta do teu corpo,

Onde o estudo de nu que vou fazendo

Se transforma no quadro terminado.


JOSÉ SARAMAGO em os Poemas Possíveis, 1966

domingo, 20 de janeiro de 2008

O que há em mim é sobretudo cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Sensação de Morte

Ela encontra-se em qualquer lugar
Em qualquer esquina. À espreita
É fria e derradeiramente indelicada

-Não à tempo…respira, aguenta, está a nascer

-Abre os olhos
Não é preciso acabares assim
-Acalma-te! Ela está perto, mas não o suficiente

-Mãe…Mãe

Negra é a chama que queima no inferno
Que ouve o grito ofegante de uma nova vida
Aquela que dás palmadinhas no rabo
E que assistes ao seu primeiro choro

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

*
Sou o veneno que te dei a beber
O segredo que não conseguíste esconder
Sou a fé do Ateu
A mão direita do esquerdino
Sou o cego a ver o vermelho
A noite iluminada pela escuridão
Sou a chávena quente de café frio
Sou as maças que Eva não comeu
O inferno que Dante nunca conheceu
Sou a voz que nunca conseguíste ouvir


Sem titulo e ainda não terminado... algumas frases apenas